A alimentação nos define
Tatiane Ueta, formada em tecnologia em gastronomia conta sobre a sua paixão pela área de confeitaria e as descobertas durante a formação
O curso superior de Tecnologia em Gastronomia surgiu, na sua grande maioria, nos últimos dez anos. No entanto a profissão de cozinheiro existe desde antes da escrita. A necessidade de profissionais especializados dentro da cozinha e gerenciando-as impulsionou esse grande aumento de instituições que oferecem o curso.
Eu prestei vestibular para o curso de Ciências Econômicas, pois estava decidida a estudar em uma Universidade Pública, mas quando a aprovação nos cursos de Gastronomia e de Ciências Econômicas chegou a minhas mãos, eu optei por me matricular no curso de Gastronomia, ainda que em uma instituição privada. Para qualquer estudante é uma decisão difícil, afinal não é apenas o investimento com as mensalidades, uniforme e facas, é também seu tempo e esforço aplicados em um sonho. Para investir em uma profissão que na última década não exigia um diploma dos profissionais, é preciso ter coragem e alguma fé de que esta é uma escolha correta.
O curso da FMU, onde me graduei, tem a duração de dois anos. Os professores são essenciais para o aprendizado do aluno, afinal não são apenas as técnicas que os professores ensinam, mas também a vivencia de cada um deles que reflete visivelmente na sua formação.
Grande parte do curso é prático. Assim, passamos tempo o bastante na cozinha para aperfeiçoarmos nossas técnicas. As aulas teóricas ensinam o necessário para que o graduando no curso possa administrar um restaurante com competência, para que a comida seja não só uma paixão, mas também um negócio rentável.
Durante o curso eu ratifiquei minha paixão pela confeitaria, descobri que os profissionais do ramo são notavelmente diferentes dos cozinheiros, sendo visível pela forma como cada um se move na cozinha, se esta pessoa será capaz de ser um confeiteiro ou não. A professora Mara Pontes que lecionou as aulas de Confeitaria, conseguia sem precisar provar a sobremesa, identificar acertos e erros. A confeitaria não admite erros nem concertos, ela é cruelmente apaixonante.
Mas uma produção que dá certo trás tanta realização, que lhe tornará viciado em produzir outras coisas com atenção para que o sucesso seja alcançado novamente. Para mim, cada mousse aerado, cada petit gateaux assado corretamente, cada éclair estufada e cada macarrom liso no topo e com bainha na base são sinônimos de que você está mais perto da perfeição. Os professores vão sim te ajudar, se você puder perceber seus erros e todos erramos! A confeitaria é complexa, pois depois de finalizada uma massa de bolo, torna-se difícil reparar os erros para que esta volte a ser, o que a receita original pretendia ser.
Foi na faculdade também que pude compreender nossa história gastronômica. Porque comemos o que comemos, e porque gostamos do que gostamos. O que outros povos comem e o que os fazem se alimentar assim. Acredito que o curso forma mais, muito mais que cozinheiros. Forma pessoas capazes de compreender outras culturas, respeitar povos diferentes, desperta interesse no desconhecido, quebra paradigmas estabelecidos desde o nosso nascimento pela sociedade que nos cerca, afinal, a alimentação também nos define. Forma filósofos do estômago, veículos da felicidade, através de um pedaço de bolo.
Durante o curso, é possível estagiar e conhecer a dinâmica diária de um restaurante. Os estagiários são mão de obra bem vinda, pois são baratos! Essa é a verdade! Mas é também uma ótima chance de aprender, afinal quando se é estagiário você tem muito mais direito de errar, o que não significa que você não deva ter responsabilidade, pois a contratação sempre vem para quem preenche a vaga com capacidade. Eu estagiei na minha própria faculdade como estoquista, em um Bistrô de pequeno porte e um mega hotel.
Por ser uma central do conhecimento, na escola temos acesso a muitos concursos, competições e feiras. Durante minha graduação tive a oportunidade de competir no concurso “The Best Chocolate Cake” que ocorreu durante a Exposição Nacional de Chocolate. O concurso exigia um bolo de casamento feito com pasta americana de chocolate. Eu nunca havia trabalhado com pasta americana anteriormente, mas com a ajuda da Chef de Confeitaria Mara Pontes e dos meus amigos Karina Mithy Kunitake, Thais Maria Gomes e Rodrigo Shiraishi Bosio, consegui entregar o bolo a tempo e ganhar a competição. Meu primeiro bolo foi com muito esforço e ajuda de todos, o bolo ganhador da ExpoChocolate 2011.
Por fim o mercado de trabalho: este necessita sim de profissionais qualificados, mas se ilude quem imagina que ao se formar na faculdade, ganhará imediatamente um cargo de chef de cozinha. Para ser chef é preciso ganhar equipe e merecer o título. Ser nomeado Chef de um restaurante em que a equipe não te conhece, é como esperar que a população obedeça a um presidente de outra nação. Cada cargo que se ocupa na cozinha, é preparação para se tornar um líder. A faculdade diminui o tempo necessário para essa nomeação, mas depende do esforço de cada um para alcançá-la.
Além de todos os melhoramentos manuais, morais e intelectuais, quando se faz um curso em que seus gostos pela comida são expostos, onde se dedica tanto tempo trabalhando em equipe, onde você se cansa, se corta, se queima, melhora, comemora, faz banquetes, eventos e se orgulha de suas conquistas perceptíveis às papilas gustativas, você conquista um novo lar! Eu aprovo com toda a certeza a decisão que tomei quando optei pelo curso de Gastronomia, ainda que pouco tradicional. Movida pela paixão pela Confeitaria, consegui resultados sólidos em muitos setores da minha vida profissional. O curso parte, para a grande maioria que o escolhe, de um impulso passional, como no meu caso, mas se o universitário alimentar essa paixão com livros, esforço, horas de estágio, disciplina nas aulas, respeito aos chefs, todos os esforços físicos, mentais, emocionais e financeiros serão recompensados.
Você também pode participar! Escreva a sua história para ligadonafaculsp@gmail.com
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